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#EsteOutroMundo

#EsteOutroMundo

Faz-me sonhar, como sempre.

É estranho como o mundo gira e me leva de volta até ti,
como se quisesse que comparasse o que fomos ao agora
e me quisesse a querer-te comigo aqui ,
como antes, como outrora.

Decididamente, acredito hoje, mais que nunca, que as coisas acontecem por uma razão e, aqui estou eu, pronta para o que vier daí, preparada para todas as coisas estranhas e vislumbres. Porque já vi que (pelo menos) o (meu) mundo é assim.

E tu vens, de rompante,
e vais de repente,
e voltas de fininho,
e desapareces mansinho
e perdes-me no meio de sonhos e sentidos,
memórias e vontades,
medos e verdades.

E eu vou ceder.
Se vieres, eu sei que não resisto.
E se fores, eu sei que eventualmente, de uma forma ou de outra, voltarás.
E se não voltares, saberei antes de tomares essa decisão.

Porque eu já decidi algumas vezes por um ponto final que, no final, virou uma vírgula baça, quase transparente e agora tenho sérias dúvidas se estas reticências serão o encerramento da tua frase.

Se forem, eu sei que um novo parágrafo vai surgir e, sinceramente, estou mais despreocupada que nunca.

Se não forem, por favor, volta com tudo. Volta com todas as palavras que sempre usei para te descrever, com toda a carga que te envolve desde que sou pequena, volta com os meus sonhos no colo e com o meu coração nas tuas mãos.

Ou então, deixa-me ir,
deixa-me perder-me noutro alguém,
deixa-me criar outros sonhos,
deixa-me escrever uma nova história.
Deixa-me escorregar para o futuro,
como se nunca tivesses considerado um comigo.
Deixa-me abraçar um novo mundo,
como se nunca tivesse partilhado o meu contigo.

Ou então vem, vem decidido
vem de vez, vem agora
fica eterna e discretamente,
fica como antes, como outrora.
Toca-me, prende-me, ama-me.
Faz-me sorrir e ficar.
Faz-me poder ver-te,
Faz-me poder ter-te,
Faz-me sonhar,
Como sempre.

Um dia vi-te.

Um dia vi-te.

Olhei-te de alto abaixo e sorri. Se tivesse sido eu a pintar-te, antes de te ver, acho que te teria feito exatamente assim: sem tirar nem por. Tinhas o cabelo meio desarrumado, a pele um pouco marcada pelo sol, as bochechas ligeiramente coradas, os olhos de brilho praticamente constante, uma borbulha com ar de teimosa junto do nariz, uma barba semi-aparada, uma pinta aqui e ali quase como se fossem feitas a marcador. Acho que o que me fez ficar ligada a ti foi precisamente isso: a tua incoerência perfeita, os teus quases que eram tudo. O sorriso meio desesperado, meio esperançoso e o olhar meio atrapalhado, meio decidido. O estares no equilíbrio, sem pender para nenhum lado. O estares no meio, como se esperasses uma metade que te completasse.

 

Um dia, assim por segundos - porque segundos bastaram - eu vi-te.

Vi-te a ti e a uma silhueta que reconheci dos sonhos. Vi-te a ti e a uma figura familiar. Até o teu cheiro era aconchegante de tão familiar, eu diria.

Acho que conseguiria fazer o teu retrato perfeito, mesmo não sabendo desenhar. Mesmo não sabendo tocar, acertava na música perfeita para te descrever. Tu és poesia e eu saboreei cada palavra segredada pelos teus movimentos. Tu és aquela sobremesa, que está mesmo a apetecer e sabe tão bem como parece: não devia dizer a ninguém, mas os teus beijos são açúcar (e isso, eu só soube depois).

Tu és verão, eu sei: no mais frio dos invernos emanas praia paradisíaca. Consigo sentir a tua tez salgada, o cabelo encrespado, os olhos brilhantes, os lábios secos, mesmo tu sendo o serzinho mais suave de sempre, como seda. Ou veludo. Ou pétalas de rosa.

Tu és ritmo: aquele que às vezes imaginamos e não sai da cabeça, aquele que é inesperado mas que aumentamos de volume e cantarolamos juntos.

Tu és o meio. O todo e a metade. Estavas no equilíbrio que sempre presei, no meio do oito e do oitenta, no meio do frio e do calor, no meio do claro e escuro, no meio do óbvio e do duvidoso. E esse sítio era o perfeito para ti, porque te relevava. Porque eras tudo no incompleto e estavas incompleto no meio de tudo. E esse equilíbrio salientava esse aspeto. E como eu gostei desse aspeto! 

Acho, genuinamente, que essa é a tua maior qualidade: o poderes ficar completo comigo.

E, no entanto, tu não o sabes. Andas como um completo ignorante deste facto, mexes-te como se não fosse nada contigo, e chegas como se fosses a coisa mais normal do mundo. Mas não és.

Eu um dia vi-te e tu eras tudo menos normal.

No bom sentido.

Ela.

Houve um dia em que abriste a tua mão e a deixaste ir.

Ela não queria, nunca quis, sempre fez força por ficar. Mas foram soltando as mãos, tu foste soltando as tuas mãos com aparente vontade... que podia ela fazer? Tentar puxar-te uma vez mais?! Tentar evitar o inevitável?! Adiar o inalterável?! Não podia. Não queria. Não conseguia. E tu conseguiste, em fim: abriste a tua mão e deixaste-a (ca)ir. E ela foi.

 

Ela foi a olhar para trás, mas seguiu. Teve de seguir. Tinha de seguir. E foi a olhar para trás, de passo lento, com vontade de voltar atrás. Mas não podia e teve de seguir. Ela tinha de seguir. 

 

E depois o tempo passou. E ela foi deixando de olhar para trás, para deixar de tropeçar. Ela foi acelerando o passo para poder fugir das memórias de ti. Ela foi seguindo, como tu quiseste que fosse. Porque ela não queria, mas não podia voltar para o que já não existia, para o que tu - e só tu - não tinhas conseguido guardar.

Houve uma altura em que chegou ao fundo. Ela disse-me que tinha chegado ao limite, em lágrimas.  Disse que ia recuperar-se um dia, acreditando na vagareza do processo. Dizia que o peso da alma não deixava que fosse de outra forma. Dizia que era tanta coisa, que não tinha leveza, nem a força necessária para fazer frente a esse peso.

Depois acho que foi perdendo peso em lágrimas. Acredita que chorou - eu vi-a chorar! Foi ficando mais leve, acredito... e talvez por isso tenha conseguido acelerar o passo. E depois foi começando a crescer -  eu vi-a crescer! Transformou momentos em memórias, momentos em lições. Acho que não deixou nada para trás.

E assim, cresceu, secou, ganhou leveza, sorriu. Eu vi-a sorrir. E foi continuando em frente, de cabeça erguida, de passo mais acelerado. Olhar para trás era cada vez menos frequente. Ela foi aprendendo a viver assim solta, de mãos largadas. Dona de si.

 

A determinada altura perdi-a de vista. Acho que deve ter ganho asas. Tu disseste para ela ir e ela foi. Tu disseste para ela não ir, mas ela já tinha voado. Mandou mensagem: foi correr mundo. 

Não sei se o mundo dos sonhos, se o mundo real, se o mundo literal. Acho que de tudo um pouco. E cresceu, dona de si. Não te esqueceu, porque era impossível isso acontecer. Mas aprendeu a gostar dela e das suas mãos soltas. 

 

Aprendeu a gostar dela e do mundo. Reaprendeu a sorrir - eu vi-a sorrir como nunca, dona de si!

Houve um dia em que tu abriste a tua mão e a deixaste ir. E ela foi, com receio do que aí viria, mas foi. Foi e chorou. Foi e lutou. Foi e descobriu. Foi e mudou. Foi e voou.

Talvez ainda te ame ou talvez seja ainda o peso de toda uma história que se passou. Talvez te voltasse a dar a mão à primeira oportunidade ou talvez te desse de novo o coração, mas não a mão. Ou talvez nenhum dos dois. Nunca mais disse ter sonhado contigo e talvez isso seja um começo. Ou algum ponto de partida. Ou apenas um momento de pausa.

Ela agora traz determinação naquele coração - e no olhar (ai se tu alguma vez lhe tivesses conseguido ler o olhar. E o coração!).  Ela às vezes perde-se, mas acho que sabe exatamente o que quer e só não o diz com medo de se expor. E ela está feliz: pode sentir falta de algumas coisas, mas está feliz. E determinada, principalmente em nunca mais se perder dela. Dona de si.

Houve um dia em que tu abriste a tua mão e a deixaste ir. E ela foi, porque teve de ir. Por ela, para bem dela, porque tu não a sabias mais ter. Houve um dia em que tu abriste a tua mão e a deixaste ir. Não a culpes, ela só fez o que tu pediste, como sempre. 

Houve um dia em que tu abriste a tua mão e a deixaste ir. E ela voou e podia ainda não saber o que queria dali para a frente, mas ficou, com certeza, a saber o que nunca mais queria.

E eu aqui, colada a ti.

O mundo tem, neste momento, mais de 7 biliões de pessoas e eu fui desencantar-te inesperadamente no meio de tanta gente, depois de tanto tempo, depois de tanta história e ponto final. Se um relâmpago nunca cai duas vezes no mesmo lugar, as probabilidades erraram na nossa tempestade e eu tive a oportunidade de me cruzar contigo uma segunda vez.

 

É engraçado como foi discreta a aproximação e como, tão rápido, nos reencontrámos, nos alcançámos e colámos.

"Colar".

 

"Colar". Ora aí está uma palavra que nos descreve tão bem.

 

Colar-me a ti. Colares os pedaços de mim. Colar o meu corpo ao teu. Colares a tua pele à minha. Colar o meu beijo aos teus lábios. Colares as tuas mãos à minha cintura. Colar os teus olhos no meu olhar. Colar as tuas palavras no meu sorriso. Colar o teu toque à minha alma. Desapegar-me dos medos que se tinham antes colado a mim e que se descolaram com a emoção da tua aterragem súbita e inocente na minha vida.

Quer dizer...Foi inocente precipitadamente e precipitadamente o deixou de ser. Desfez-se quando me apercebi que ainda guardava restos do nosso primeiro beijo na minha boca. Desapareceu quando o teu toque me levou de volta ao calor das mãos dadas daquela primeira vez. Transformou-se quando nos teus olhos vi o reflexo daquele utópico nascer do sol que, até então, recordava sem me aperceber da tua presença.

 

Aquelas cores vestiram-me o coração inúmeras vezes e outras tantas me aqueceram a alma. Aquelas cores trouxeram sonhos e revelaram memórias como se de um rolo de fotografia se tratasse. Aquelas cores foram-te pintando na minha frente, como se fosse a primeira vez que te via, tal como uma fotografia vai ganhando cor. E na minha memória esse nascer do sol ganhou um novo brilho, tu ganhaste novas cores e toda a história até então fez sentido.

E colei-me a esse déjà vú. Colei-me a ti. Senti-te colares pedaços de mim. Colei o meu corpo ao teu com juras de nunca mais te deixar ir. Senti-te colar a tua pele à minha e apaixonei-me um pouco mais. Colei o meu beijo aos teus lábios e prometi nunca mais saborear um outro sorriso. Colaste as tuas mãos à minha cintura, com a força de quem não me queria ver fugir ("que inocente!", pensei... como se alguma vez ousasse em te voltar a fugir). Colei os teus olhos no meu olhar, tomando-os como o meu horizonte. Colei as tuas palavras no meu sorriso, nos meus ouvidos, no meu ser. Tomei-as como a minha essência a partir daí. Colei o teu toque à minha alma, colaste-te a mim.

 

E aquela imagem dos dois adolescentes, secretamente apaixonados, disfarçadamente de dedos entrelaçados e de inocentes olhares trocados, repetiu-se.

Desta vez sem nascer do sol. Porque o que tinha de nascer, havia nascido uns anos antes. Desta vez as nuvens foram embora. Aquelas nuvens que ali pairavam há alguns anos, sim. Foram embora e deixaram o sol lá bem no alto, quente, como daqueles dias de verão que nunca mais acabam e que aquecem o olhar, salgam a pele, lavam a alma. E, de cabelos colados ao corpo, fizeram-se promessas de adolescentes, com sabedorias e sabores diferentes, sob o sol quente. 

 

Seria o sol quente ou o coração?

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