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#EsteOutroMundo

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À noite

Se havia altura em que queria estar acordada era neste momento.

Nunca quis tanto estar acordada, estar desperta para um mundo que encarava de tal forma em modo robô que acabava por ignorar tudo o que sentia, tudo o que surgia de novo e pudesse despertar de novo. Dormir era demasiado doloroso... quer dizer, nem há certezas que se pode chamar-se “dormir”, visto que parecia estar com os sentidos mais despertos do que quando tinha os olhos abertos. Era incrível como o inconsciente conseguia ter todo este poder infalível para manter desperto uns sentidos que durante o dia pareciam adormecidos ou dormentes. A verdade é que ela precisava de dormir… há dias que as insónias a atormentavam como se o inconsciente precisasse mais de estar acordado e viver do que ela própria, conscientemente, vivia durante o dia.

Não adiantava o esforço de se deitar cedo: os olhos poderiam estar fechados, mas ela via como nunca. E se tentasse aguentar acordada, para não ter de reviver tudo aquilo mais uma vez e outra vez e outra vez … e outra vez, eram tentativas em vão. Um falso cansaço atacava furtivamente, deixando-a com os seus pensamentos involuntários a que um dia poderia ter correspondido a palavra “sonho”. E ela, conscientemente ou inconsciente, deixava-se sonhar. Deixava-se vencer pelo cansaço de não conseguir combater aquilo. Porque é que custava tanto deixá-lo ir? Passado tanto tempo, como poderia ainda estar tão presente?! Passado tanto tempo como poderia mantê-la tão acordada durante a noite e tão adormecida durante o dia!? Como poderia ela sentir mais durante o sono que durante o resto da vida? Como era possível sentir tanta coisa ao mesmo tempo e ignorar o que o resto do mundo tinha para oferecer?!

Ela queria desesperadamente deixar-se levar pelo mundo, aceitar de braços abertos a alegria de todos os dias, os pequenos sorrisos de rua, os pequenos pormenores sobrenaturais da natureza, queria estar disposta a todo aquele mundo lá fora, tão perto dela… e ao mesmo tempo tão longe!  E neste momento, voltar a acordar para o mundo parecia tão impossível, tão improvável de voltar a acontecer, tão longe de alcance… e ela dava mais uma volta na cama, como se abafar o lado esquerdo conseguisse abafar mais alguma coisa não tão física… Ela sabia que não. Ela tinha plena consciência de que nada do que fizesse agora ia resultar. E virava-se, revirava-se, voltava-se e voltava a voltar-se e a virar-se às voltas. Em vão. Em vão porque a única coisa que podia parar aquilo continuava feito barata tonta, às voltas, num vazio… e deixando-lhe, também a ela um vazio. E depois de tanto tempo… depois de tanta magia, depois de tanta vida, tanta revolta, tanta confusão, tanta mágoa, tanta luta, tudo o que ela tinha era aquele vazio tão cheio de tudo e que a fazia sentir sem nada. Ela não sabia de nada. Ela não saboreava nada. Ela não sentia nada. Ela era nada e ela… Ela… Ela desta vez conseguiu o que mais ansiava.

Acordou.

Finalmente, o momento mais esperado daquele sonho: o fim.

 

(...)

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