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#EsteOutroMundo

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(Sem medo) Mesmo que a chuva se torne ainda maior

Ouvia-se a chuva lá fora, estava fresco mesmo para início de primavera. Sentou-se no seu lado da cama, esfregou os olhos com um resto de maquilhagem persistente que ficara do dia anterior e olhou para o nada. Abraçou-se, como se quisesse confirmar se sentia alguma coisa. Duvidou também. Não teve a certeza se se sentiu tocar-se, se realmente os braços se mexeram, se as mãos apertaram alguma coisa. Deixou-se cair. Era escusado aquele desespero e ela sabia-o.

Mas sabia que era incontrolável sentir tal vazio, sabia que era inevitável que de repente as pestanas lhe escurecessem o vermelho dos lábios, ela sabia que eventualmente iria sentir umas cóceguinhas a chegarem-lhe ao canto da boca e um toque salgado na ponta da língua. Ela sabia e duvidou. Duvidou que alguma vez ele lá estivera com ela, duvidou que alguma vez tivesse sido real e que ele realmente tivesse estado com ela. Duvidou de todo o tempo que partilharam. Teria sido só um devaneio? Um sonho que terminara com uma queda real. Será que alguma vez tocou o céu realmente? Será que teve mesmo um dia Aquele sorriso brilhante?

Recordou algumas imagens como se fossem slides projetados, recordou momentos como se fossem fotografias jogadas no fundo de um baú. E chorou. Chorou sem medo, porque o maior medo deu-se por concretizado. Chorou sem saber quando ia parar, porque a única coisa que parecia infinita tinha terminado. Chorou em silêncio, porque lhe roubaram a voz. A voz, o toque, a audição, a visão... e o tacto que ganhara com ele, a capacidade de sentir algo que a fazia sentir tudo, a capacidade de tocar o sol, de voar nas nuvens, de dançar à chuva, de abraçar o mar e de sentir tudo isso como se fosse mesmo possível. 

Ela sentiu-se sozinha, sentiu-se numa cápsula invisível, intocável e inalcançável. Sentiu-se confortavelmente sozinha. Ela precisava disso, precisava de não sentir, precisava de respirar sem ninguém, precisava de não ouvir. Precisava de chorar.

Lá o fundo, sabia que tinha lutado, tinha feito de tudo, tinha dado tudo. Tinha tentado até ao limite. Mas o problema era esse. Havia um limite e ela não queria. Havia um fim, e ela não queria. Havia um não e ela não percebia. Passara-se tempo suficiente para o dizer, mas ela continuava como da primeira vez que o viu ir embora: sem perceber. 

 

Continuava a ter o coração dela a acelerar. E o que lhe custava mais era isso: era saber que o amava tanto ou mais do que no primeiro momento. Era saber que tinha ficado muito por dizer e terem estado tão próximos do auge da felicidade, era ter ficado tanto por viver e ela não saber o que poderia ter acontecido. E ela ficou ali sentada, sem ligar à chuva que batia na janela, sem ligar ao que se passava fora da cápsula que a envolvia, lamentando que a única coisa que se mantinha igual era a falta de compreensão sobre o que ela sentia. Amá-lo era o que ela sempre tinha tentado fazer, sem precisar de grande esforço para isso, sem precisar de ganhar vontade, porque vontade era o que ela já tinha. Ela amava-o, ela amava amá-lo, ela queria amá-lo! E ela duvida agora se alguma vez ele tinha percebido isso. 

Era difícil lidar com a dor de o ter perdido onde quer que fosse, era difícil forçar aquele sorriso cada vez que saía de casa. Levantar-se, vestir-se, viver sem ele e passar o dia a pensar no que foi dito a mais e no que podia ter sido dito e não foi. Era pesado de mais. Era pesado de mais continuar a ouvia a voz dele durante o sono, sentir o toque dele durante os sonhos. Sentia-se fraca: por não conseguir sobreviver sem ele, por não conseguir ser ela, sem ele. Mas isso, ela sabia porquê: estava incompleta. Ele tinha feito parte dela, os seus braços tinham sido o seu forte, o seu coração a sua almofada, o seu abraço tinha sido o seu porto de abrigo e agora não fazia mais, cada vez que se tocavam explodia uma energia incrível, cada vez que se beijavam ela voava e tocava o céu. E ao recordar esses momentos, afundava-se ainda mais. E ela não se sentia ela, porque faltava ele. Ela precisava dele, queria-o na vida dela.

Estava desesperada. Desesperada por não perceber como tinham chegado até ali, por não saber porque tinham chegado até ali, depois de tudo o que conseguiram ultrapassar, depois de tantas vezes ele ter conseguido tirá-la da sombra, depois de tanta vez terem feitos juras de amor.

 

Estava cansada, afogada em pensamentos e palavras, em memórias destruídas. Ela própria estava destruída, despedaçada como cem milhões de pedaços de vidro, que tinha receio não conseguir reunir. Mas tinha a certeza: não ia desistir, mesmo se a chuva apertasse, ela continuaria ali amando-o mais a cada respiração, guardando todo aquele amor para ele. Ela sabia que tinham muito que aprender, que todas as diferenças entre eles serviam para aprender a usar os dons que tinham. Ela não queria desistir. Ela não ia desistir.

 

Com uma pequena ajuda de músicas que me inspiram.

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