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#EsteOutroMundo

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Bom dia.

A luz começou a entrar aos poucos por entre as frestas de uma persiana mal fechada como se o dia quisesse acordar aquelas paredes, mas as acordasse calma e serenamente da mesma forma que o mar beija a areia da praia em dias de maré vaza sem corrente. À medida que o quarto amanheceu, também eu fui despertando. O meu corpo continuava mole do dia anterior, sem se querer convencer de que a noite tinha efetivamente terminado.

Tentei forçar o meu cérebro a compactuar com as pálpebras cerradas: "só mais um pouco, só mais uns minutinhos, por favor". O meu inconsciente queria acordar e o meu consciente estava a perder aquela batalha. O corpo foi despertando também, apesar dos olhos fechados. O cérebro não conseguia ficar quieto muito mais tempo... só o corpo fazia força para se manter adormecido. Estremeci. 

Estremeci quando o meu cérebro me lembrou de algo mais. Estremeci quando o meu corpo se apercebeu do sítio exato onde se encontrava.

Estremeci com a sensação de calma que me envolveu. Estremeci e dei meia volta, ficando de frente a frente para aquele vulto. Aquele corpo ainda preso no sono desenhava-se à minha frente como um escudo protetor. Por segundos, inconscientemente, pensei ainda estar a dormir e pisquei os olhos numa tentativa de acordar de um possível sono (e sonho). Mais acordada era impossível.

Estremeci por ser real. Estremeci por estar ali. Estremeci pela certeza tão absoluta de não haver lugar mais certo onde eu pudesse estar. Estremeci pela felicidade de ser um sonho da vida real. Estava feliz naquele local (o local que não era o quarto).

Incrível como um espaço tão apertado pode fazer alguém sentir-se tão livre, tão solta. É incrível como aquele local me fazia sentir tão inocente, tão pequenina, tão frágil... e tão forte, tão segura, tão feliz. 

Não quis mais dormir ou ter sono. Quis estar desperta para sempre, para não desperdiçar nem mais um momento naquele sítio tão ideal, tão acordada que sentisse aquele estremecer para sempre, de sensação tão boa que era. Não quis mais sair dali: se eu decidisse o tempo pararia naquele exato momento, sem quês ou porquês e eu vivia ali, naquele abraço, naquele regaço, junto àquele peito protetor, como se ele fosse um portal para aquele corpo (e, para mim, de certa forma, até era ).

 

Se eu decidisse o tempo pararia naquele exato momento, sem absolutamente mais nenhum quê ou porquê. E eu viveria ali para sempre, no teu abraço, no teu regaço, colada  ao teu peito, como se fosse um portal até  ao teu corpo. E para mim, de certa forma, era: a minha alma levitava com o teu bater de coração

 

Sentir ali, pele com pele, com a tua respiração serena na minha nuca, a sentir cada batimento cardíaco, cada toque e cada movimento. Ajeitei-me em ti, como se ainda não estivesse perto o suficiente. E depois, quando me apercebi que era ali que ia estar para sempre e que naquele lugar nada de mal podia chegar, senti aquele friozinho de sempre, que todas as manhãs me deixava feliz: a pontinha do teu nariz frio de quem acabou de acordar num quarto rodeado de inverno tocou, finalmente, a minha testa e os teus lábios húmidos encostaram no meu nariz. "Bom dia".

 

Sim, agora ia ser, definitivamente, um bom dia. E eu suspirei de alívio: o dia tinha-me acordado para ti.

Dança Comigo.

Hoje sonhei contigo.

Aliás, sonho todas as noites. Umas vezes sonho a dormir, outra vezes sonho acordada e outras vezes vivo o sonho: o sonho de te ter, o sonho de me encaixar tão perfeitamente nos teus braços e em ti, o sonho de acordar o teu sorriso e de despertar o meu. Mas hoje sonhei contigo.

Estavamos numa sala a meia luz. Nenhum de nós se via completamente lá, apenas vultos por de trás das cortinas de tule em tons pastel... acho que estávamos em lados opostos. De repente, começa a tocar aquele clássico que eu adoro do Dirty Dancing , como se fosse preciso uma música para me dizer que os meus melhores momentos da vida são nos teus braços.

Engraçado. Acho que depois de tanto tempo, nunca te tinha visto, se quer, gingar o passo e ali estavas tu, tal Patrick Swayne, de cabelo desgrenhado, mas no sítio certo e camisa branca desapertada no decote e a abanares-te ao som de Time of my Life. Ao menos, ali, tive a certeza que também tu sentias aquilo que era dito na música. Acho que acertámos os passos... Não tenho a certeza porque o meu eu no sonho estava concentrado no teu rosto: no sorrito maroto e sincero, nos lábios que o soltavam tão deliciosamente e no olhar atrevido mas apaixonado. Não sei se não pareceríamos dois bobos a dançar por ninguém, numa sala de tule pastel a meia luz. Não sei se não pareceríamos espelho um do outro, de tão embrenhada que estava no teu rosto: aposto que a minha expressão seria a mesma.

Lembro-me que dançámos. Dançámos muito como se sempre tivéssemos feito aquilo. Dançámos tão intensamente que acho que teríamos envergonhado qualquer par de bailarinos campeões. Dançámos como se a nossa vida dependesse disso. E como eu gostei de dançar contigo! 

Não sei porquê... Não me perguntes porque sonhei com tal cena épica, de um catálogo de romantismo. Não me perguntes porque dançámos. Não me perguntes porquê aquele enredo todo... Toda aquela perfeição.

Dançámos. Rodopiámos. Chegou a parte da música em que a Baby é pegada ao colo. E tu, tal Johnny Castle, pegaste em mim, como se tivéssemos ensaiado aquela cena um milhão de vezes! Não houve falha de um passo, de um tempo, de um gesto... E beijaste-me, comigo lá no ar.

Não sei se no mundo dos sonhos já alguma vez me terias beijado, porque senti todo o tipo de arrepios de quando há um primeiro beijo. Mas ali ficámos, depois do beijo, depois de me baixares, depois de a música terminar. Perdemo-nos nos olhos um do outro. Perdemo-nos nos lábios um do outro. Perdemo-nos um no outro e encontrámo-nos um para o outro.

Roubaste-me um segundo beijo. Eu percebi que não adiantaria o número de vezes que me beijarias dali para frente e que provavelmente, mesmo em sonhos, não fazia diferença se aquele seria o primeiro, o décimo ou o milésimo beijo: a sensação de pertencer ali, de pertencer a ti e todos aqueles arrepios ia acontecer sempre.

E depois percebi: talvez o sonho tenha sido a melhor analogia perfeita para nós... Que outra forma demonstrar toda a nossa sintonia e musicalidade se não dançando de forma tão perfeita, ao som de um dos mais românticos clássicos do cinema? Talvez fossemos mesmo o espelho um do outro.

 

E agora, acordei. E enquanto esfrego os olhos e me apercebo daquele sonho tão incrivelmente natural, olho para ti aqui adormecido, com o mesmo sorriso bobo. Aposto que se tivesses os olhos abertos, seriamos um inevitável espelho um do outro. 

Ignoro o sol a espreitar lá fora, depois de uma semana enevoada e enrolo-me em ti. Mais uma vez, solto um suspiro profundo, confirmando o quanto pertenço a este lugar. E dançamos de novo, de olhos fechados e com os teus braços à minha volta. E eu que acordei de um sonho contigo, volto a sonhar, conscientemente e de peito a saltar.

dança-comigo.png

 

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