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#EsteOutroMundo

#EsteOutroMundo

De ti, tudo.

Correndo o risco de me tornar repetitiva, não podia deixar de dizer o quanto quero tudo o que me podes dar.

Quero o teu toque,
o teu respirar junto de mim.
Quero os teus beijos de cinema, os teus beijos de "até já".
Quero os teus boas noites em beijos na testa,
e quero uns bons dias frequentes...
quero todos os (bons) dias a que temos direito! 
E todas as noites.

Quero passar os nascer do sol contigo, mesmo que a dormir.
Quero passar as luas cheias,
luas nova,
e todas as luas.
E tempestades.
E noites geladas.
E noites para derreter - por ti e por causa do calor. 
Quero todas as séries.
Todos os filmes.
Quero não os ver contigo, porque adormeço em ti. 

Quero que me contes todos os teus segredos,
quero conhecer-te como ninguém.
Quero as conversas sérias,
as conversas sobre o tempo,
ou jogar conversa fora. 
Quero que me conheças,
que me entendas,
Que me agarres (pela cintura e pela alma).
Quero descobrir-nos.

Porque acredito que o amor ainda existe,
e que o amor é isso.
É termos tudo um do outro,
e partilharmos o mundo,
e vivê-lo juntos.

Prometo dar-te tudo de mim,
e quero que não hesites em dar-me o melhor e o pior de ti.

De ti, quero tudo!

Ensina-me a voar.

Deixa-me ter-te.

 

Deixa-me abraçar-te de manhã, como se percebesse que o teu cheiro não é um sonho, ter o teu desenho na minha cama quando te levantas e perceber que o teu tão ambicionado regresso é tão efetivo como a minha existência. Acho que sinto falta da nossa essência e tudo o que ainda não fomos . Deixa-me passar-te os olhos, observar-te de alto a baixo, de baixo a alto, de frente - olhos nos olhos, mãos nas mãos, coração no coração, abraço em abraço.

 

Deixa-te de coisas: deixa-me comprovar-nos e provar-nos - sem medo dos dissabores, sem medo do agridoce, às vezes tão amargo, sem medo do menos bom, sem medo do que pode correr mal... Somos mel e prometo não deixar estragar. Deixa-me aceitar-te - a ti, aos teus defeitos, aos teus efeitos e manifestos e a tudo o que és tu e me faz tão bem. Deixa-me provar-te que conseguimos ir à lua e viver sem gravidade - flutuando mundo fora, gravitando vida fora, cometendo o erro de cair na rotina, sem virarmos enfado, sendo agudos tão melódicos, tão sinfónicos, tão eufóricos, vivendo o crime tão fácil - e irrisório, nada grave - de sermos felizes.

 

Deixa-te de coisas. Deixa-me contigo. Deixa-te comigo. Entrega-te a nós e à nossa luta. Não desperdicemos um segundo mais sem nos deixarmos ser.

Deixa-me deixar-nos levar. Leva-nos aos dois, nesse teu bolso estilo infinito, tal fotografia nunca tirada, tal retrato de casal maravilha, tal papel com recado mais que importante, nota delirante, sem qualquer ponta de delírio - que viramos tão reais quanto a nossa existência. Guarda-me no teu sorriso torto, que eu tanto namoro. Deixa-me perder-me no teu peito que tanto me preenche, por dentro, por fora, por sempre, por ora, e de antes em diante. Desperta-me os sentidos. Vivamos estas nossas parábolas (sem imoralidades, porque fazemos tudo bonito) - moral da história, viras epopeia de perdição que insiste em ser narrada. Prosa poética a ser lida, interpretada, como dissertação de química, tese de física, de gastronomia, anatomia, astrologia e astronomia.

 

Deixa-te de coisas e leva-me ao céu... vemos as estrelas (de perto) - que tu pareces perceber algo disso. Tu já me dás asas, mesmo que não queiras... e, por isso, quem sabe, ensinas-me mesmo a voar.

Um trago de ti.

Só mais um pouco, por favor. Mais um bocadinho, que eu prometo que é rápido!

 

Só preciso de um pouco mais. Uma última palavra, um beijo, um toque, um abraço. Só mais uns segundos, por favor.

Dá-me só mais um olhar, um sorriso, um passeio, um cafuné. Dá-me só mais uma chamada, uma mensagem.

 

Dá-me mais um jantar, uma fatia de pizza encomendada à pressa, uma bolacha... uma dentada, apenas. Dá-me só mais um encontro: bebemos um café? Só mais um copo. Um gole, talvez? Um pequeno tragozinho...

 

Pausa-nos. Guarda-nos. Preserva-nos.

Dá-me só mais um momento. Só mais uma caminhada por mim, num caminho sem volta até ti. Depois volto eu a mim, mas fico-me contigo. Prometo chegar e não partir. Prometo ficar. Prometo-te a minha existência. Prometo os “aindas”, os “tudos”, os “sempre”. Prometo-te as palavras de significado doce, intenso e permanente. Prometo um beijo longo à chegada, um ainda maior nas despedidas provisórias. Prometo-te um toque demorado que pernoite. Prometo-te abraços apertados sem motivo, e os confortantes sempre que precisares. Prometo ver-te. Prometo guardar-te os olhares, os sorrisos e o cafuné de domingo à tarde.

 

Dá-me o que ainda não me deste. Deixa-me dar-te o tanto que tenho para oferecer. Dá-me só mais um pouquinho, que eu dou-te tudo o que poder, para quereres partilhar tudo o que tens para mim. E eu depois dou-te o tempo todo do mundo. Dou-te todo o meu mundo, na verdade. Só preciso de mais um bocadinho... dás-me mais uns minutos , por favor? Umas horas talvez... ainda há tanto para fazer – um mundo gigante para vivermos, um beijo inteirinho para demorarmos.

 

Demora-te aqui: fica com delongas... que daqui, da minha parte, por esses lábios - e todo o resto - não hesito em ficar, e ainda há tanto que te quero mostrar e tanto para te desvendar! Fica mais um bocado, que ainda é cedo. Não vás já, que mal te vi - mal nos senti e bem nos quis. Fica-te por aqui, sim? Pelo menos mais um pouco: dá-me mais um pouco de ti.

 

Dá-me mais um pouco de nós – uns dias, talvez. Talvez seja ousadia da minha parte, sendo o tempo algo tão precioso... Mas seria muito pedir-te mais uns meses? É só mais um pouquinho e perdoa-me a loucura, mas cada vez que penso em ti, quero-te um pouco mais. Quero-nos um pouco mais – um trago do que não era perfeito, mas tão bom.

 

Dá-me mais um pouco de nós: peço, talvez, só mais uns anos e depois ficas o resto da vida, como quem não quer a coisa. Só quero mesmo um trago a mais: um trago dos “sins”, dos “gosto”. Um trago dessa intuição, porque a minha ambos sabemos que não funciona. Um trago de um sonho que não seja tão breve, um trago de um “era uma vez” que pode imediatamente ser um “para sempre”.

 

Dá-me só mais um pouco mais de nós, um pouco mais disto, que soube a tão pouco. Dá-me só mais um trago de nós... só mais um trago de ti, por favor.

trago01.png

Éramos uma vez.

Fomos um momento apenas:
um apontamento no calendário,
um meio sorriso,
um movimento arriscado,
um canto perdido num mundo imaginado,
um caminho escondido a corta-mato,
um gesto mal-amanhado,
uma meia palavra, meia lua,
céu nublado com abertas,
uma gota perdida numa rua.

Fomos um livro gigante em miniatura,
mas apenas uma linha fina numa folha A4,
um soluço do tempo,
um boato com cinco minutos de fama,
um dicionário sem definições,
perguntas sem resposta,
um pretexto sem contexto,
sem paratexto.
sem momento,
sem encaixe,
sem nexo.

Fomos uma tontice de uma cabeça
com asas que toda a gente dispensa,
um achaque de um peito inquieto,
um impulso de um coração intenso.

Fomos uma boca prestes a falar,
um abraço longe de apertar
um olhar que nunca se trocou,
um beijo que ficou por dar,
um segredo por guardar.

Fomos um presente envenenado,
uma vida não vivida,
o rescaldo de uma epifania,
uma fofoquice de uma epopeia,
o prólogo de uma letra capital,
uma antestreia sem estreia principal,
uma antevisão de um jogo sem apito inicial,
empatado por falta de comparência de ambas as partes.

Fomos nem duas palavras,
um segundo de história,
um poema de um verso,
que não rima,
não termina,
e é impossível de declamar.

Fomos um ponto final,
uma música que nunca se fez,
uma ideia que se desfez,
uma lenda pouco encantada,
um conto sem final feliz,
fomos um sopro,
um ápice,
fomos pouco mais de uma vez,
fomos um momento apenas,
um momento de pouca lucidez
e éramos para ser tudo de uma vez.

Éramos os dois,
Éramos uma vez.

Alguém especial.

​" Achas que posso ter mais um beijo? Eu encontrarei o final nos teus lábios e depois vou.

 

Talvez também mais um pequeno almoço, mais um almoço, mais um jantar. Eu estarei completa e feliz e depois podemos separar-nos.

Mas, entre as refeições, achas que podemos deitar-nos uma vez mais? Mais um momento prolongado em que o tempo fica suspenso indefinidamente e eu pouso a minha cabeça no teu peito.

 

A minha esperança é que adicionarmos tantos "mais um" que equivalerão ao tempo de uma vida e nunca cheguemos à parte em que eu te deixo ir.

Mas isso não é real, pois não? Não há mais "mais um".

 

Conheci-te quando tudo era novo e excitante e as possibilidades do mundo pareciam não ter fim. E ainda são. Para ti. Para mim. Mas não para nós. Algures entre o depois e o agora, o aqui e ali , eu penso que não nos fomos separando... apenas fomos crescendo.

 

Quando alguma coisa parte, se as peças são suficientemente grandes, tu és capaz de consertar. Infelizmente, às vezes, as coisas não partem: elas estilhaçam-se. Mas quando deixas a luz bater, o vidro estilhaçado brilha. E, nesses momentos - em que os pedaços do que éramos apanharem sol - eu vou lembrar-me de quão bonito foi. De quão bonito será, sempre.

Porque éramos nós. E nós fomos magia. Para sempre. "

 

Excerto do filme da Netflix : SOMEONE GREAT / ALGUÉM ESPECIAL, com Gina Rodriguez.

(Não podia deixar de partilhar, esta despedida maravilhosa ao amor.)

 

Faz-me sonhar, como sempre.

É estranho como o mundo gira e me leva de volta até ti,
como se quisesse que comparasse o que fomos ao agora
e me quisesse a querer-te comigo aqui ,
como antes, como outrora.

Decididamente, acredito hoje, mais que nunca, que as coisas acontecem por uma razão e, aqui estou eu, pronta para o que vier daí, preparada para todas as coisas estranhas e vislumbres. Porque já vi que (pelo menos) o (meu) mundo é assim.

E tu vens, de rompante,
e vais de repente,
e voltas de fininho,
e desapareces mansinho
e perdes-me no meio de sonhos e sentidos,
memórias e vontades,
medos e verdades.

E eu vou ceder.
Se vieres, eu sei que não resisto.
E se fores, eu sei que eventualmente, de uma forma ou de outra, voltarás.
E se não voltares, saberei antes de tomares essa decisão.

Porque eu já decidi algumas vezes por um ponto final que, no final, virou uma vírgula baça, quase transparente e agora tenho sérias dúvidas se estas reticências serão o encerramento da tua frase.

Se forem, eu sei que um novo parágrafo vai surgir e, sinceramente, estou mais despreocupada que nunca.

Se não forem, por favor, volta com tudo. Volta com todas as palavras que sempre usei para te descrever, com toda a carga que te envolve desde que sou pequena, volta com os meus sonhos no colo e com o meu coração nas tuas mãos.

Ou então, deixa-me ir,
deixa-me perder-me noutro alguém,
deixa-me criar outros sonhos,
deixa-me escrever uma nova história.
Deixa-me escorregar para o futuro,
como se nunca tivesses considerado um comigo.
Deixa-me abraçar um novo mundo,
como se nunca tivesse partilhado o meu contigo.

Ou então vem, vem decidido
vem de vez, vem agora
fica eterna e discretamente,
fica como antes, como outrora.
Toca-me, prende-me, ama-me.
Faz-me sorrir e ficar.
Faz-me poder ver-te,
Faz-me poder ter-te,
Faz-me sonhar,
Como sempre.

Blusão de ganga.

Hoje vestiste o meu casaco preferido.

Quando entreabri os olhos de manhã, pronta a enfrentar um novo dia que eu esperava que fosse tão bom como o meu acordar, já só vi a tua silhueta a compor o casaco, de costas para mim.

Aquele casaco que tinhas no dia em que te conheci, aquele casaco do nosso primeiro encontro que me ofereceste na cena cliché do "está um pouco de frio, não está?", aquele casaco que eu agarrei com tanta força no nosso primeiro beijo, aquele casaco que eu te roubo, sorrindo e cantando, cada vez que o vejo pousado em qualquer lado... aquele casaco que me faz derreter todinha! Era inevitável lutar contra o desejo de puxar esse casaco - e a ti - para mim, contra mim, a favor de mim e de todas as emoções que todos os teus gestos e não-gestos me provocaram.

 

E tu ali: tão metido nas tuas coisas, tão metido nos teus pensamentos e na tua rotina, que nem te apercebeste do quão observado estavas a ser, do quão estudado ao pormenor, do quão percorrido. E eu estática, numa viagem incontrolável pela tua pessoa, seguindo por curvas e contracurvas já tantas vezes decoradas, perdida naqueles pormenores que eu saberia descrever de olhos fechados.

 

E aquele casaco acentava-te tão, mas tão bem! Caía-te tão bem sobre os ombros, descaía-te tão bem pelas costas, combinava tão bem com o teu tom de pele e com o teu corte de cabelo. E ficava ali tão bem a dar-me os bons dias, contigo dentro dele, sem me veres.

 

Acho que esta cena ia ficar ali na minha cabeça o resto da vida. Aqueles escassos segundos em que te ajeitavas e me brindavas com a tua essência, com o teu jeito, com o teu cuidado. Se bem que já era um déjà vu ter-te assim para mim e ver-te assim para mim. E fazia-me sentir tão, mas tão, mas tão bem! 

 

Não sei ao certo o que me fazia bem (ou o que me fazia melhor): se o teu reflexo na janela, se a tua silhueta ali no meu horizonte (dando ainda mais força à verdade mais certa do universo: tu eras o meu horizonte), se a tua água de colónia acabada de perfumar o quarto. Eu juro que tinha uma necessidade tão grande de me esperguiçar e de sair da cama, mas era tão melhor olhar-te, sem sair do meu sonho, sem despertar totalmente, sem sair do nosso casulo que ainda cheirava a ti e me abraçava...

 

Mas tu estavas pronto. Aliás, estavas mais que pronto: estavas vestido, perfumado, de cabelo ajeitado e de blusão vestido. E eu tinha todo um novo dia a chamar por mim, por mais que os lençóis me prendessem e a vida parecesse estagnada quando te estudava assim.

Espreguicei-me. Tu viraste-te e todos aqueles segundos em que te estudei, fizeram ainda mais sentido: o teu sorriso cumprimentou-me. As ruguinhas desenhadas nos teus olhos por esse comprimento fizeram-me vibrar. Como eu gostava daquelas manhãs, como eu gostava do teu sorriso.

 

Deste-me um beijo na testa e sussurraste-me um bom dia.

Puxei com força o teu blusão, beijei-te a bochecha, beijei-te levemente os lábios. 

"Bom dia e até logo, meu amor".

Sentei-me na cama para me preparar para um novo dia. O blusão saiu pela porta e tu foste com ele, balançaste sobre a ombreira da porta, espreitaste para dentro, olhaste para mim.

"Até logo". 

FÉ.

Os últimos dias tinham sido estranhos, como se estivesse à espera de algo que não sabia o que era: como é que se pode esperar o que não se sabe que vai chegar?! No entanto, lá estava eu, alienada ao mundo exterior, a tudo o que não parecia novidade, a tudo o que era o mesmo de sempre, a ignorar qualquer coisa que fosse diferente, a repetir a rotina de forma automática, tal robot.

E depois, eis que a meio da rotina o meu inconsciente se sobressalta: de um lado eu, do outro lado algo que podia, perfeitamente, ser teu. Óbvio que isso já fazia parte da rotina: os sobressaltos do meu inconsciente (e do meu coração) a pensar que te tinha posto a vista em cima; o bater acelerado a tentar perceber se eles tinham razão (como se o inconsciente pudesse ser racional no que toca a ti); o olhar nervoso a tentar desvendar vultos e caras, e estilos, e letras e cores; a aceleração da memória visual a tentar desvendar (desvendar a paisagem, a vida, a possibilidade de algo ser teu ou de seres tu).

Mas ali foi diferente.

 

Ali, o meu mundo quase que ficou em pausa para poder confirmar(-te). Ali, a rotina passou em cima de uma ponte, por cima de um rio. Ali, eu saltei mesmo. Eu parei mesmo, enquanto as outras vidas corriam. Ali o meu coração passou de acelerado a tão rápido que parecia parado. Eu parei, qual cena idílica, especada a olhar para uma silhueta que poderia tão bem pertencer-te como eu te queria pertencer. E o resto corria, quase que em velocidade de Fórmula 1. E parecia que só eu... Aliás, só eu e Tu (ou o possível "TU") estávamos parados, especados, a deixar-me estudar aquele enredo em pormenor - e a assumir aquela silhueta com o maior foco que os meus olhos já fizeram.

O problema foi esse: foi o "parecer", foi o ser apenas um "possível tu", foi o  facto de só eu ter ficado especada e o resto do mundo correr - correr muito... CORRER TANTO! Foi, como sempre, ter sobressaltado o meu consciente, acelerado o meu coração, ter saltado, ter olhado nervosamente e ativado a minha memória. Porque ela percebeu que não eras tu e desde o início que isso era óbvio. Óbvio que não podias ser tu desde o início. 

E ali estava eu, especada, a olhar para alguém que não eras tu... A olhar, portanto para ninguém, enquanto o mundo corria e o resto da vida acontecia: enquanto o coração se desapontava, mais uma vez pela falta da tua existência, pela persistência da tua ausência, pela saudade de te ver e te tocar.

Ali estava eu, congelada debaixo de um por do sol primaveril, enquanto o resto sucumbia à rotina de fim de dia e enquanto a minha memória racionalizava mais que todo o meu corpo todo junto, enquanto o meu coração desacelerava com a incerteza do que faria se fosses tu e do que talvez o eu - ou parte de mim - faria.

 

E eu poderia contar toda uma história do que aconteceria se fosses tu.

Contar uma história para cada uma das hipóteses: da hipótese de mesmo assim não me veres e apenas eu estar especada a olhar para onde poderias estar tu, da hipótese de nenhum de nós se ver - se cruzar, se olhar, se sorrir, se tocar, se abraçar... Uma história de todas as hipóteses que poderiam haver.

Até poderia contar a história do que aconteceria se fosses tu, e eu te visse, e tu me visses, e nos olhássemos pelos intervalos entre cada carro, cada vidro. A história de ficarmos os dois, naquela ponte, separados por filas de metal colorido, a estudar o futuro de cada um, qual matemática complicada, ao sabor do vento, iluminados pela luz crepuscular, ao som da minha banda sonora preferida, que tanto me lembra de ti e me gritava, naquele exato momento ao ouvido.

Poderia contar a história daquele reencontro inesperado, ansiado, enervante e já retratado. A história do que aconteceria assim que os meus olhos te avistassem, do que aconteceria no tempo massivo em que não nos tocássemos. Poderia contar a história em como, enquanto passavam inúmeras vidas entre nós, a separarem os nossos toques, eu sabia que os nossos corações se iam falar. A história em como eu sabia que parte de mim e parte de ti já se estariam a entrelaçar, só com a possibilidade estarmos ali a meros metros de distância, se efetivamente fosses tu. A história de como um vulto meu e um vulto teu se tocariam tão antes de nós, dançariam sobre a cidade, ao por do sol. A história de como eles se abraçariam e como eu gostaria de te abraçar também. E é inevitável não imaginar isso quando a possibilidade de te estares a cruzar comigo acontecer. E é inevitável não levitar com esse desejo, é impossível desgostar dele. E eu que queria tanto que fosses tu!

Só que não eras, então talvez essas histórias fiquem para depois.

 

Mas, mesmo depois de me terem roubado tão insensivelmente a possibilidade de te ver e como se o céu, a ponte, o rio, a cidade fossem testemunhas dessa desilusão e desses microssegundos de êxtase, apesar de eu lutar tanto para racionalizar e controlar essa vontade tão selvagem, evitar ter as expectativas tão elevadas e a esperança tão aguçada, tão intensa... eis que o mundo me quis deixar uma nota indiscreta, clara e imperdoável: FÉ.

Depois de desaparecer qualquer hipótese de seres tu ali, depois de ter decido continuar o meu caminho em direção ao dia seguinte, e como se não tivesse havido estranheza suficiente nos últimos dias, e sem eu, nem tu ou ninguém poder perceber se foi o vento, a água, a magia da cidade dos amores, tudo isso ou qualquer outro ícone a favor de ti na minha vida, a mensagem surgiu do nada, como uma bofetada: FÉ. 

E eu tenho a certeza de que se já não fosse maluca o suficiente para acreditar em magia ou para já ter somado todos os sinais que têm surgido à tua volta, naquele momento eu não teria dúvidas: FÉ.

Juntaram-se duas letras diante dos meus olhos, que eu pisquei para ter a certeza de que o que via era real. Era.

E a fé ficou.

Discretamente.

És um ser discreto num mundo descarado. Um ser silencioso num mundo [demasiado] barulhento. És um ser misterioso num mundo de evidências.

Chegas escondido por entre as pradarias da vida, aproximas-te tacitamente e olhas-me como quem quer chegar mais perto e pede aprovação (por favor, não peças). Não esperas, mas não tens pressão também: tomas-me a medo e conquistas-me devagar, discretamente, como quem não quer a coisa. Tudo a seu tempo. E porquê ter pressa, se o mundo normalmente já acelera? És um ser calmo, num mundo apressado. E a pressa é inimiga da perfeição. E talvez estejas a escrever algo cuidadosamente e queiras chegar lá: ao auge, ao topo, ao melhor. À ordinária imaculidade que toda a gente espera conseguir alcançar e que, considerada neste teu momento e neste teu mundo, não parece tão ordinária. E talvez consigas chegar até lá, talvez consigas alcançar a perfeição. Talvez consigas mesmo alcançar o que procuras.  E quem espera sempre alcança.

 

E alcanças-me. E eu deixo-te alcançar-me, lentamente. E eu alcanço-te sem ter a celeridade que nenhum de nós precisa...ou quer. És uma pequena bolha num áspero mundo gigante. Tornas-te um mundo gigante e delicado, na minha pequena bolha. És um ser suave num mundo grosseiro.

 

Discretamente, aconchegas-te no ponto final da frase que escreveste para mim. Esperas que a leia e a interprete [que te leia, e te interprete]. Esperas que a repita e a reescreva [esperas que te repita e te reescreva]. E a descreva. E te descreva. Queres tão indiscretamente que te leia e te repita, que chegas a tornar um pouco mais indiscreto. Mas eu gosto de ti indiscreto. E discreto. E no meio termo. E com um certo "quê" de tudo. E quero tudo ou nada, contigo. E quero um nada de tudo contigo. E de ti. 

 

E tu és um ser completo, num mundo por preencher. És um ser incompleto, num mundo cheio . És um todo, num mundo de nada.

 

E entras de rompante: mas eu gosto quando chegas com tudo. E gosto quando me agarras petulantemente. E quando chego a ti sem perder tempo. E nós estamos praticamente imóveis na tua onda de descrição, mas há todo um mundo dentro de nós que acelera. E que aquece. E que se perde - que se perde em nós, dentro de nós, entre nós... E que te deixa mais agitado (que, claramente, nos deixa bem mais agitados), no mundo que, naquele momento, transpira tranquilidade. E eu chego a ti. 

E ajeito-me no olhar que me fizeste. E espero que me observes e me vejas. Que me refaças e componhas. E que leias. Que me leias, me interpretes, me escrevas, me descrevas, me repitas. E sei que fico mais indiscreta contigo. Mais mexida e agitada. E sou um poço de emoção, sou um poço de ansiedade. Eu sou um ser ansioso, no teu mundo de calma. Sou um ser ansioso, no teu mundo de paz.

E eu sou uma mulher ansiosa, no teu olhar tranquilo. No teu corpo tranquilo.

Eu tenho um coração desassossegado, no teu peito calmo.

 

Porque eu sou um ser emotivo, num mundo desapegado. E tu refazes-me cada vez que me tocas, porque tu és uma espécie de restaurador, no meu mundo em ruínas.

Eu, tu e o resto.

E a vida passou de amarga a doce. Ficou tão doce que eu não precisava tanto de doces! A sério: era tão mais fácil saborear a vida em vez de um pedaço de chocolate e era tão melhor saborear um beijo teu, a um doce qualquer! E, na verdade, fazia-me sentir tão mal uma overdose de doces, e faz-me sentir tão bem a tua pessoa!

A noite também passou de fria para quente, desde os teus "boa noite", mesmo se não os dizes. E as manhãs tornam-se bem mais suportáveis quando acordo e há um "bom dia". Aliás, a contagem decrescente para te ver de novo começa desde o momento que me despeço de ti... e os "bom dia" significam que cada vez está mais próximo o plano para me sentir zen: eu, tu... e qualquer sítio onde possa respirar a liberdade que é estar ali contigo. Eu, tu e o rio. Eu, tu e as árvores. Eu, tu e o mar. Eu, tu e o "onde-quer-que-vamos".

E suportar a rotina passou de praticamente impossível para bastante suportável , desde que os fins de semana compensam tão bem todo o stress semanal e rotineiro.

O ar ficou com outro cheiro, e não é só o da Primavera ter chegado... não é só aquele cheiro a dias compridos e quentes. Mas tenho de confessar que é bem mais fácil associar-te à Primavera que ao Inverno, porque tudo fica mais colorido, calmo, divertido, estonteante, leve e fácil de suportar. Na Primavera e contigo. 

 

E eu tenho noção do perigo que representas. Tenho noção que a calma precede a tempestade. Tenho noção do que isto pode representar, a todos os níveis. Tenho plena noção do que implicas e que implicamos... Mas é tão mais fácil querer-te junto do que te deixar lá longe! 

E como tudo o que poderia vir daqui, eu sei que não vai ser fácil. Aliás, eu tenho plena noção que poderá ser bem mais complicado do que fácil... Mas aqui estou eu de novo, pondo-me à mercê do difícil, prometendo tentar facilitar-nos o máximo possível, até onde for possível.

A mim, a ti e aos nossos planos. A mim, a ti e às nossas vontades. A mim, a ti e aos nossos momentos. A mim, a ti e às nossas conversas. A mim, a ti e ao nosso silêncio. A mim, a ti e à nossa calma.

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