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#EsteOutroMundo

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V A I !

E se depois do pôr do sol já não estiveres? Se te fores embora com a última luz do dia? Se não te encontrar no escuro da noite?

Vai !
Porque a praia é um bom sítio para te perder... e , na verdade , há lá sítio melhor para esperar por um novo dia? Há lá sítio melhor para respirar a minha companhia? Há lá sítio melhor para recomeços?

Aproveito - me de mim. A solidão não me cansa , a minha companhia agrada-me. Sorrio-me e abraço-me - verdade que é sem ti, mas é comigo. E, assim, amanhã já não te perco. Tu vais e eu fico. Amanhã já me encontrei e brilho à luz do sol ou da lua. E ficarei ali até à noite. Aproveito - me naquela luz de fim de dia que existe contigo, ou sem ti e que lá está sempre que preciso. Amanhã já não te perco, apesar de nunca ter pensado ter - te e de não se poder perder o que nunca se teve .

Vai!

Há já muito tempo que me sei guiar tão bem no escuro da noite como em plena luz do dia ...

E, se desapareceres no mar como o sol, desapareces bonito.

Vai ! Porque eu não vou, não quero ir, nem desapareci . Estive , estou e estarei lá ( para o pôr do sol , para mim e , se for o caso , até para ti ).

Jeitinho elástico.

16 de dezembro de 2020

Sabes aquele teu jeitinho de sorrir?

Não sabes. Acho que não sabes. Não sabes, nem nunca soubeste... talvez nem queiras saber. Mas eu sei. Eu conheço-o e ele mexe tanto comigo!

E tu talvez não queiras, mas ele diz-me muito mais que tu. Talvez eu também veja algo mais do que ele diz na verdade, mas fora exageros, ele diz tanto mais do que o que achas que ele diz (ou do que queres que diga).

Às vezes fico na dúvida se é algum filtro que eu tenho que o põe mais bonito. Ou talvez um filtro que me permita vê-lo por dentro. Ou talvez ele esteja a nu, à minha frente, contra a tua vontade. Mas é esse jeitinho: é esse jeitinho que me abraça e não larga, é esse jeitinho que se aproxima de mansinho e me conquista toda e cada vez, é esse jeitinho que dá saudade, que faz sentir vazio se não está, é esse jeitinho que acalma a alma e deixa o peito em loucura. É esse jeitinho que me acelera o coração quando me desafoga e quando me deixa afogar. É esse jeitinho elástico.

Mas tu não sabes: não sabes que o tens e muito menos sabes o seu efeito. Desconheces por completo o tamanho do bem que me faz que o tenhas (e o mal que me faz quando me o tiras). Não fazes ideia da desarrumação do meu peito que fica quando está sem ele. A agitação louca do meu corpo,  a vontade de gritar

"- Eu gosto de ti."

Sem segredos, sem receios, sem arrependimentos, sem segundas intenções, sem prospecções. Gosto de ti porque sou mais eu contigo na minha vida. Gosto de ti, porque cabem numa mão os teus defeitos - e o maior dele todos e não estares aqui. Gosto de ti, porque é difícil não gostar do que nos faz rir tão genuinamente: e quem diz rir, diz, chorar, sorrir, brilhar, tremer, sonhar, gritar, vibrar.

Rir de mim, rir de ti, rir de nós, rir do mundo, das vontades e do universo. Rir do(no) passado, do(no) presente, do(no) futuro. Chorar do que não foi, do que não é, do que pode ser. Sorrir dos elogios, da saudade, da presença, do teu sorriso, do teu olhar. Brilhar por dentro, por fora, de dentro para fora, e mais intensamente que o sol. Tremer que nem varas verdes quando não te vejo, quando não te toco, quando estou para te sentir junto a mim. Sonhar em contagem decrescente para a realidade. Gritar alto - que gosto de ti, que te quero para mim; gritar alto por não te ter aqui.

Por mares já navegados

Um dia desapareceste entre espuma branca e ondas altas, em direção a Sabe-se-lá-onde. Nesse momento, pensei-te navegante de outros mares para sempre, pensei-te explorador de outras costas, entusiasta de outras encostas, longe de qualquer vista mar.

Mas depois tu decidiste um regresso e aportaste no meu cais, de novo, quando te pensava entre ondas e marés. Aportaste no meu cais, talvez perdido de tormentosas tempestades, talvez oriundo de terras distantes, talvez, quem sabe, das profundezas do oceano, talvez indisposto da viagem, talvez sem saber onde o destino te traria.

Horas, dias, meses: o tempo que passara era-te desconhecido (na verdade, até para mim) e eu olhava para ti como se olhasse para o meu horizonte, sem saber como te acalmar deste teu fado impetuoso (se saber como me acalmar desta incerteza imprevisível), sem saber como esclarecer as dúvidas que terias, sem saber como te ler esse olhar impenetrável que diz o contrário do que os teus lábios pronunciam. A verdade é que, quando partiste, julguei-te perdido para sempre, julguei-me desprendida de ti, julguei solução as ruas mais distantes do porto de onde saíste e, agora, aqui estava eu: percorrendo todo o caminho de volta até à nossa margem, onde pensei nunca mais voltar e onde a altura da água é a mesma depois das lágrimas que lá deixei cair ao ver-te ir, passando pelas marcas da minha determinação deixadas na direção contrária nas pedras de calçada. A paisagem parece um pouco diferente agora que o teu barco está no cais: o sol parece mais brilhante, as ruas mais cheias de cor, as margens mais translúcidas.

 

E eu aqui, a esperar por te receber de novo neste teu regresso, rezando para que acredites que teremos a melhor vista mar do mundo inteiro.

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Faz-me sonhar, como sempre.

É estranho como o mundo gira e me leva de volta até ti,
como se quisesse que comparasse o que fomos ao agora
e me quisesse a querer-te comigo aqui ,
como antes, como outrora.

Decididamente, acredito hoje, mais que nunca, que as coisas acontecem por uma razão e, aqui estou eu, pronta para o que vier daí, preparada para todas as coisas estranhas e vislumbres. Porque já vi que (pelo menos) o (meu) mundo é assim.

E tu vens, de rompante,
e vais de repente,
e voltas de fininho,
e desapareces mansinho
e perdes-me no meio de sonhos e sentidos,
memórias e vontades,
medos e verdades.

E eu vou ceder.
Se vieres, eu sei que não resisto.
E se fores, eu sei que eventualmente, de uma forma ou de outra, voltarás.
E se não voltares, saberei antes de tomares essa decisão.

Porque eu já decidi algumas vezes por um ponto final que, no final, virou uma vírgula baça, quase transparente e agora tenho sérias dúvidas se estas reticências serão o encerramento da tua frase.

Se forem, eu sei que um novo parágrafo vai surgir e, sinceramente, estou mais despreocupada que nunca.

Se não forem, por favor, volta com tudo. Volta com todas as palavras que sempre usei para te descrever, com toda a carga que te envolve desde que sou pequena, volta com os meus sonhos no colo e com o meu coração nas tuas mãos.

Ou então, deixa-me ir,
deixa-me perder-me noutro alguém,
deixa-me criar outros sonhos,
deixa-me escrever uma nova história.
Deixa-me escorregar para o futuro,
como se nunca tivesses considerado um comigo.
Deixa-me abraçar um novo mundo,
como se nunca tivesse partilhado o meu contigo.

Ou então vem, vem decidido
vem de vez, vem agora
fica eterna e discretamente,
fica como antes, como outrora.
Toca-me, prende-me, ama-me.
Faz-me sorrir e ficar.
Faz-me poder ver-te,
Faz-me poder ter-te,
Faz-me sonhar,
Como sempre.

Ela.

Houve um dia em que abriste a tua mão e a deixaste ir.

Ela não queria, nunca quis, sempre fez força por ficar. Mas foram soltando as mãos, tu foste soltando as tuas mãos com aparente vontade... que podia ela fazer? Tentar puxar-te uma vez mais?! Tentar evitar o inevitável?! Adiar o inalterável?! Não podia. Não queria. Não conseguia. E tu conseguiste, em fim: abriste a tua mão e deixaste-a (ca)ir. E ela foi.

 

Ela foi a olhar para trás, mas seguiu. Teve de seguir. Tinha de seguir. E foi a olhar para trás, de passo lento, com vontade de voltar atrás. Mas não podia e teve de seguir. Ela tinha de seguir. 

 

E depois o tempo passou. E ela foi deixando de olhar para trás, para deixar de tropeçar. Ela foi acelerando o passo para poder fugir das memórias de ti. Ela foi seguindo, como tu quiseste que fosse. Porque ela não queria, mas não podia voltar para o que já não existia, para o que tu - e só tu - não tinhas conseguido guardar.

Houve uma altura em que chegou ao fundo. Ela disse-me que tinha chegado ao limite, em lágrimas.  Disse que ia recuperar-se um dia, acreditando na vagareza do processo. Dizia que o peso da alma não deixava que fosse de outra forma. Dizia que era tanta coisa, que não tinha leveza, nem a força necessária para fazer frente a esse peso.

Depois acho que foi perdendo peso em lágrimas. Acredita que chorou - eu vi-a chorar! Foi ficando mais leve, acredito... e talvez por isso tenha conseguido acelerar o passo. E depois foi começando a crescer -  eu vi-a crescer! Transformou momentos em memórias, momentos em lições. Acho que não deixou nada para trás.

E assim, cresceu, secou, ganhou leveza, sorriu. Eu vi-a sorrir. E foi continuando em frente, de cabeça erguida, de passo mais acelerado. Olhar para trás era cada vez menos frequente. Ela foi aprendendo a viver assim solta, de mãos largadas. Dona de si.

 

A determinada altura perdi-a de vista. Acho que deve ter ganho asas. Tu disseste para ela ir e ela foi. Tu disseste para ela não ir, mas ela já tinha voado. Mandou mensagem: foi correr mundo. 

Não sei se o mundo dos sonhos, se o mundo real, se o mundo literal. Acho que de tudo um pouco. E cresceu, dona de si. Não te esqueceu, porque era impossível isso acontecer. Mas aprendeu a gostar dela e das suas mãos soltas. 

 

Aprendeu a gostar dela e do mundo. Reaprendeu a sorrir - eu vi-a sorrir como nunca, dona de si!

Houve um dia em que tu abriste a tua mão e a deixaste ir. E ela foi, com receio do que aí viria, mas foi. Foi e chorou. Foi e lutou. Foi e descobriu. Foi e mudou. Foi e voou.

Talvez ainda te ame ou talvez seja ainda o peso de toda uma história que se passou. Talvez te voltasse a dar a mão à primeira oportunidade ou talvez te desse de novo o coração, mas não a mão. Ou talvez nenhum dos dois. Nunca mais disse ter sonhado contigo e talvez isso seja um começo. Ou algum ponto de partida. Ou apenas um momento de pausa.

Ela agora traz determinação naquele coração - e no olhar (ai se tu alguma vez lhe tivesses conseguido ler o olhar. E o coração!).  Ela às vezes perde-se, mas acho que sabe exatamente o que quer e só não o diz com medo de se expor. E ela está feliz: pode sentir falta de algumas coisas, mas está feliz. E determinada, principalmente em nunca mais se perder dela. Dona de si.

Houve um dia em que tu abriste a tua mão e a deixaste ir. E ela foi, porque teve de ir. Por ela, para bem dela, porque tu não a sabias mais ter. Houve um dia em que tu abriste a tua mão e a deixaste ir. Não a culpes, ela só fez o que tu pediste, como sempre. 

Houve um dia em que tu abriste a tua mão e a deixaste ir. E ela voou e podia ainda não saber o que queria dali para a frente, mas ficou, com certeza, a saber o que nunca mais queria.

O dia depois de amanhã.

Eles acham que sabem. Eles devem pensar que basta olhar para saber. Mas eles não sabem: não sabem nada! Eles nem se quer imaginam.

Se eles soubessem, talvez fosse diferente, talvez agissem diferente, talvez as coisas fossem de outra forma, talvez vissem as coisas com outros olhos, e talvez o mundo conspirasse com outros ventos.

Eles acham que sabem, que basta olhar para saber, mas ele não sabem nada. Eles nem se quer imaginam!

 

Se soubessem, talvez pusessem o mundo a nosso favor, talvez unissem esforços por nós, talvez conspirassem a nossa aproximação definitiva, talvez nos empurrassem para a nossa épica reconciliação. Se eles soubessem, se calhar havia uma biografia escrita por alguém desconhecido, que ganharia fama assim. Talvez servisse de história de encantar. Uns anos mais tarde, se eles soubessem, talvez estreasse um filme, cheio de pompa e circunstância, cheio de vontade de ser. Talvez se tornasse num clássico de cinema. E depois toda a gente saberia ... ou pelo menos, achariam que sabiam. Como se bastasse ouvir para saber. Mas eles não saberiam: nunca saberiam!  Nem se quer lhes passaria pela imaginação! 

Eles nunca saberiam o que aconteceu: tudo o que vivemos antes de nos vermos a primeira vez, nem de como lá chegámos, àquele ponto de encontro, àquele ponto da história.

Eles nunca teriam a mais ínfima ideia do que os nossos corações se controlaram quando nos pusemos os olhos em cima, do que os nossos corações adivinharam da primeira vez que chegámos perto um do outro, do que os nossos corações partilhavam no silêncio dos nossos sorrisos, do que os nossos corações sabiam um sobre o outro. Acho que nem nós tivemos um pouco da noção do que se passava entre os dois: da sintonia do batimento cardíaco, como se cantassem afinados a mais sentida das baladas; do conhecimento sobre cada curva, cada veia, cada tom, como se se fossem perder um no outro e quisessem dispensar o mapa. Acho que só eles sabem o que realmente aconteceu connosco.

 

Se os nossos corações falassem, acho que apenas deles sairia a derradeira verdade: só eles saberiam descrever com exatidão cada sensação liberta, cada arrepio sentido, cada sorriso partilhado, cada olhar trocado, cada abraço apertado, cada palavra proferida, cada impulso contido, cada desejo cedido. Se os nossos corações falassem, seria a única forma de o mundo ter uma muito ligeira ideia do que ficou por dizer e por sentir, do que foi repetido vezes sem conta sem nunca parecer suficiente.

E o que foi repetido foi tanto, e mesmo assim não parece ter sido repetido vezes suficientes: as palavras, os gestos, os olhares, as palavras, os toques, os arrepios, as palavras, os desejos, as palavras, os sonhos... E tudo seria mais fácil se continuassem a ser repetidos. E o mundo não sabe: o mundo não faz ideia do que foi (e do que é) . Não faz ideia do que fomos (do que somos, do que queremos ser).

 

E eles acham que sabem. Eles acham mesmo que sabem. Mundo ridículo, que pensa que alguma vez vai perceber. Mundo estúpido este, que pensa que alguma vez vai saber. Eles não sabem: não sabem nada! Eles nem se quer imaginam! 

Acho que nem nós sabemos. Acho que nem nós soubemos, se quer. Acho que nunca soubemos, apesar de tudo. Nem poderíamos, porque o resto lá fora passou tão rápido -  a vida correu tanto, foi tão díspare. Acho que só os nossos corações souberam.

Eles souberam e estão a ser teimosos, a castigar-nos. A castigar-nos por os termos deixado desamparados.

 

Acho que se os nossos corações falassem, apenas deles sairia a derradeira verdade: só eles saberiam confessar sem nenhuma confusão o que fomos, o que somos e o que podíamos ser, se o mundo soubesse de um pouco, se o mundo ajudasse nem que fosse um pouco, se a vida fosse nossa cúmplice. 

 

Porque o mundo não sabe, só finge que sabe - e finge mal. E já lá vai algum tempo, e nunca ninguém vai saber de nada... E nós nunca vamos saber de nada, só vamos esperar por eles: vamos esperar que eles falem, que se vejam, que se toquem, que se cruzem, que eles se juntem, de novo, na vida. Vamos esperar que se sonhem. Tomara que ainda queiram!

E o mundo nunca vai saber... mas talvez nós saibamos... talvez um dia por aí... talvez hoje ainda, talvez amanhã. Talvez eles ainda se sintonizem no dia depois de amanhã.

FÉ.

Os últimos dias tinham sido estranhos, como se estivesse à espera de algo que não sabia o que era: como é que se pode esperar o que não se sabe que vai chegar?! No entanto, lá estava eu, alienada ao mundo exterior, a tudo o que não parecia novidade, a tudo o que era o mesmo de sempre, a ignorar qualquer coisa que fosse diferente, a repetir a rotina de forma automática, tal robot.

E depois, eis que a meio da rotina o meu inconsciente se sobressalta: de um lado eu, do outro lado algo que podia, perfeitamente, ser teu. Óbvio que isso já fazia parte da rotina: os sobressaltos do meu inconsciente (e do meu coração) a pensar que te tinha posto a vista em cima; o bater acelerado a tentar perceber se eles tinham razão (como se o inconsciente pudesse ser racional no que toca a ti); o olhar nervoso a tentar desvendar vultos e caras, e estilos, e letras e cores; a aceleração da memória visual a tentar desvendar (desvendar a paisagem, a vida, a possibilidade de algo ser teu ou de seres tu).

Mas ali foi diferente.

 

Ali, o meu mundo quase que ficou em pausa para poder confirmar(-te). Ali, a rotina passou em cima de uma ponte, por cima de um rio. Ali, eu saltei mesmo. Eu parei mesmo, enquanto as outras vidas corriam. Ali o meu coração passou de acelerado a tão rápido que parecia parado. Eu parei, qual cena idílica, especada a olhar para uma silhueta que poderia tão bem pertencer-te como eu te queria pertencer. E o resto corria, quase que em velocidade de Fórmula 1. E parecia que só eu... Aliás, só eu e Tu (ou o possível "TU") estávamos parados, especados, a deixar-me estudar aquele enredo em pormenor - e a assumir aquela silhueta com o maior foco que os meus olhos já fizeram.

O problema foi esse: foi o "parecer", foi o ser apenas um "possível tu", foi o  facto de só eu ter ficado especada e o resto do mundo correr - correr muito... CORRER TANTO! Foi, como sempre, ter sobressaltado o meu consciente, acelerado o meu coração, ter saltado, ter olhado nervosamente e ativado a minha memória. Porque ela percebeu que não eras tu e desde o início que isso era óbvio. Óbvio que não podias ser tu desde o início. 

E ali estava eu, especada, a olhar para alguém que não eras tu... A olhar, portanto para ninguém, enquanto o mundo corria e o resto da vida acontecia: enquanto o coração se desapontava, mais uma vez pela falta da tua existência, pela persistência da tua ausência, pela saudade de te ver e te tocar.

Ali estava eu, congelada debaixo de um por do sol primaveril, enquanto o resto sucumbia à rotina de fim de dia e enquanto a minha memória racionalizava mais que todo o meu corpo todo junto, enquanto o meu coração desacelerava com a incerteza do que faria se fosses tu e do que talvez o eu - ou parte de mim - faria.

 

E eu poderia contar toda uma história do que aconteceria se fosses tu.

Contar uma história para cada uma das hipóteses: da hipótese de mesmo assim não me veres e apenas eu estar especada a olhar para onde poderias estar tu, da hipótese de nenhum de nós se ver - se cruzar, se olhar, se sorrir, se tocar, se abraçar... Uma história de todas as hipóteses que poderiam haver.

Até poderia contar a história do que aconteceria se fosses tu, e eu te visse, e tu me visses, e nos olhássemos pelos intervalos entre cada carro, cada vidro. A história de ficarmos os dois, naquela ponte, separados por filas de metal colorido, a estudar o futuro de cada um, qual matemática complicada, ao sabor do vento, iluminados pela luz crepuscular, ao som da minha banda sonora preferida, que tanto me lembra de ti e me gritava, naquele exato momento ao ouvido.

Poderia contar a história daquele reencontro inesperado, ansiado, enervante e já retratado. A história do que aconteceria assim que os meus olhos te avistassem, do que aconteceria no tempo massivo em que não nos tocássemos. Poderia contar a história em como, enquanto passavam inúmeras vidas entre nós, a separarem os nossos toques, eu sabia que os nossos corações se iam falar. A história em como eu sabia que parte de mim e parte de ti já se estariam a entrelaçar, só com a possibilidade estarmos ali a meros metros de distância, se efetivamente fosses tu. A história de como um vulto meu e um vulto teu se tocariam tão antes de nós, dançariam sobre a cidade, ao por do sol. A história de como eles se abraçariam e como eu gostaria de te abraçar também. E é inevitável não imaginar isso quando a possibilidade de te estares a cruzar comigo acontecer. E é inevitável não levitar com esse desejo, é impossível desgostar dele. E eu que queria tanto que fosses tu!

Só que não eras, então talvez essas histórias fiquem para depois.

 

Mas, mesmo depois de me terem roubado tão insensivelmente a possibilidade de te ver e como se o céu, a ponte, o rio, a cidade fossem testemunhas dessa desilusão e desses microssegundos de êxtase, apesar de eu lutar tanto para racionalizar e controlar essa vontade tão selvagem, evitar ter as expectativas tão elevadas e a esperança tão aguçada, tão intensa... eis que o mundo me quis deixar uma nota indiscreta, clara e imperdoável: FÉ.

Depois de desaparecer qualquer hipótese de seres tu ali, depois de ter decido continuar o meu caminho em direção ao dia seguinte, e como se não tivesse havido estranheza suficiente nos últimos dias, e sem eu, nem tu ou ninguém poder perceber se foi o vento, a água, a magia da cidade dos amores, tudo isso ou qualquer outro ícone a favor de ti na minha vida, a mensagem surgiu do nada, como uma bofetada: FÉ. 

E eu tenho a certeza de que se já não fosse maluca o suficiente para acreditar em magia ou para já ter somado todos os sinais que têm surgido à tua volta, naquele momento eu não teria dúvidas: FÉ.

Juntaram-se duas letras diante dos meus olhos, que eu pisquei para ter a certeza de que o que via era real. Era.

E a fé ficou.

Sobreviver.

Naquele momento, eu soube que seria impossível esquecer-te.

Por tudo o que havia acontecido contigo, comigo e connosco.

Sabia que seria impossível esquecer-te por tudo o que estava por trás de termos acontecido. Por toda a história que nos envolveu e em que estávamos envolvidos, por todas as histórias que criámos um para o outro e por todas as histórias que criámos juntos, eu sabia que seria impossível deixar-te, pura e simplesmente, ir.

 

E eles avisaram. Sem saberem, sem te conhecerem de todo, eles avisaram que eu me ia perder de novo. E eu tinha medo de me perder. Pensava nisso todos os dias: pensava que ficar sem ti significava ficar sem rumo. Ficar sem ti seria desorientar-me. Ficar sem ti era ficar sem absolutamente nenhuma direção. Eu contigo caminhava para ti e caminhava a teu lado, para o mesmo destino. Sem ti na minha vida para onde iria?!

 

E havia dias em que pensava como seria se acabasse, porque com tanta coisa boa era inevitável pensar que seria efémero, certo? Dizem que quando a esmola é muita o pobre desconfia... e quando reparei que, efetivamente, era tudo tão bom, convenci-me que poderia muito bem estar apenas a sonhar. Como não?! 

Tudo girava a nosso favor: o vento soprava na nossa direção, o mar tocava a nossa melodia, o sol brilhava a cada passo... os dias até pareciam mais longos quando estava contigo! E os nossos momentos... os nossos momentos que pareciam tirados de comédias românticas ou histórias de encantar?! Os nossos momentos mágicos, que pareciam parar o relógio e ao mesmo tempo pareciam tão rápidos que mal tinhamos tempo de aproveitar?! 

 

E os teus beijos? Os teus beijos que me arrepiavam toda, com a melhor sensação que alguma vez tinha sentido?! Os teus beijos que me prendiam como se me estivesses a abraçar, mesmo se não me tocasses com mais nada de ti?! Esses teus beijos que me derretiam, que me envolviam, que me prometiam mundos (até universos!) e fundos?! Eu sabia lá se saberia respirar se deixasse de ter os teus lábios colados em mim! Eu sabia lá o que fazer da minha vida mesmo se soubesse respirar! Eu nem sei se quereria respirar sem eles... Comecei a ter medo de que fossem mentira, também... que fossem mentira como todo o nosso mundo poderia ser.

 

E eram todas essas coisas que me diziam o quão impossível seria esquecer-te... como essa capacidade pudesse ser quantificada! E eu morria de medo de um dia te ver ir...

 

E um dia acho que foste. Acho que quiseste ir e eu deixei-te ir... E sabes que mais? Acho que consegui sobreviver.

Talvez até me tenha perdido um pouco, talvez até sinta falta desses beijos perfeitos, talvez tenha pena de ter perdido as nossas antíteses, a nossa sintonia perfeita, a nossa história engraçada... mas sobrevivi tão bem sem ti... 

E talvez nunca te esqueça. Mas ao menos também me vou lembrar de tudo o que nos fazia não ser perfeito. Talvez nunca te deixe ir realmente, mas com certeza, não te vou deixar voltar.

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