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#EsteOutroMundo

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Um dia vi-te.

Um dia vi-te.

Olhei-te de alto abaixo e sorri. Se tivesse sido eu a pintar-te, antes de te ver, acho que te teria feito exatamente assim: sem tirar nem por. Tinhas o cabelo meio desarrumado, a pele um pouco marcada pelo sol, as bochechas ligeiramente coradas, os olhos de brilho praticamente constante, uma borbulha com ar de teimosa junto do nariz, uma barba semi-aparada, uma pinta aqui e ali quase como se fossem feitas a marcador. Acho que o que me fez ficar ligada a ti foi precisamente isso: a tua incoerência perfeita, os teus quases que eram tudo. O sorriso meio desesperado, meio esperançoso e o olhar meio atrapalhado, meio decidido. O estares no equilíbrio, sem pender para nenhum lado. O estares no meio, como se esperasses uma metade que te completasse.

 

Um dia, assim por segundos - porque segundos bastaram - eu vi-te.

Vi-te a ti e a uma silhueta que reconheci dos sonhos. Vi-te a ti e a uma figura familiar. Até o teu cheiro era aconchegante de tão familiar, eu diria.

Acho que conseguiria fazer o teu retrato perfeito, mesmo não sabendo desenhar. Mesmo não sabendo tocar, acertava na música perfeita para te descrever. Tu és poesia e eu saboreei cada palavra segredada pelos teus movimentos. Tu és aquela sobremesa, que está mesmo a apetecer e sabe tão bem como parece: não devia dizer a ninguém, mas os teus beijos são açúcar (e isso, eu só soube depois).

Tu és verão, eu sei: no mais frio dos invernos emanas praia paradisíaca. Consigo sentir a tua tez salgada, o cabelo encrespado, os olhos brilhantes, os lábios secos, mesmo tu sendo o serzinho mais suave de sempre, como seda. Ou veludo. Ou pétalas de rosa.

Tu és ritmo: aquele que às vezes imaginamos e não sai da cabeça, aquele que é inesperado mas que aumentamos de volume e cantarolamos juntos.

Tu és o meio. O todo e a metade. Estavas no equilíbrio que sempre presei, no meio do oito e do oitenta, no meio do frio e do calor, no meio do claro e escuro, no meio do óbvio e do duvidoso. E esse sítio era o perfeito para ti, porque te relevava. Porque eras tudo no incompleto e estavas incompleto no meio de tudo. E esse equilíbrio salientava esse aspeto. E como eu gostei desse aspeto! 

Acho, genuinamente, que essa é a tua maior qualidade: o poderes ficar completo comigo.

E, no entanto, tu não o sabes. Andas como um completo ignorante deste facto, mexes-te como se não fosse nada contigo, e chegas como se fosses a coisa mais normal do mundo. Mas não és.

Eu um dia vi-te e tu eras tudo menos normal.

No bom sentido.

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